Terapias focais para câncer de próstata: HIFU, eletroporação e outras abordagens

Médico utiliza modelo anatômico para explicar terapias focais câncer de próstata a paciente durante consulta urológica.

Conteúdo revisado pelo Dr. Jonathan Doyun Cha, urologista especializado em doenças prostáticas e cirurgias minimamente invasivas.

As terapias focais no câncer de próstata chegaram para mudar a lógica do tratamento: em vez de tratar o órgão inteiro, a medicina moderna aprendeu a mirar apenas no tumor.

Por décadas, o diagnóstico de câncer de próstata levava automaticamente a uma discussão sobre cirurgia ou radioterapia, tratamentos eficazes, mas que atuam sobre toda a glândula e carregam riscos significativos de impotência e incontinência urinária. 

Hoje, esse cenário está mudando. As terapias focais no câncer de próstata representam uma nova geração de tratamentos minimamente invasivos, capazes de destruir o tumor com precisão cirúrgica sem comprometer estruturas vizinhas essenciais para a qualidade de vida do paciente.

Tecnologias como o HIFU (ultrassom focalizado de alta intensidade), a eletroporação irreversível e a crioterapia focal deixaram de ser promessas e passaram a ser opções concretas, reconhecidas por entidades como a European Association of Urology (EAU) e a American Urological Association (AUA). 

No entanto, elas não são para todos. A seleção adequada do paciente é o que separa um resultado excelente de uma abordagem equivocada.

O que são as terapias focais no câncer de próstata?

Tratamento direcionado ao tumor, não ao órgão inteiro

A lógica das terapias focais é simples de entender, mas sofisticada de executar. Em vez de remover ou irradiar toda a próstata, o objetivo é identificar com exatidão a localização do tumor, usando biópsia guiada por ressonância magnética multiparamétrica e então, aplicar a energia destrutiva apenas naquela região. 

O restante do tecido prostático, os nervos responsáveis pela ereção e o esfíncter urinário ficam preservados.

Diferença fundamental em relação à cirurgia e à radioterapia

Na prostatectomia radical (cirurgia convencional), toda a próstata é removida. Na radioterapia, toda a glândula é irradiada. 

Ambas são altamente eficazes no controle oncológico, mas o preço pode incluir disfunção erétil em proporção significativa dos pacientes e, em menor grau, incontinência urinária. 

As terapias focais surgem justamente como alternativa para casos selecionados, onde a agressão menor ao tecido saudável é clinicamente justificada.

O objetivo central: controle oncológico com preservação funcional

O que se busca com o tratamento focal da próstata é um equilíbrio: eficácia no controle do tumor + preservação da função sexual e urinária. 

Isso não significa abrir mão do rigor oncológico, significa entender que, em determinados estágios e perfis de doença, é possível tratar com menos e obter resultados igualmente seguros.

Para quem as terapias focais são indicadas?

Câncer localizado como requisito principal

As terapias focais estão indicadas para pacientes com câncer de próstata localizado, ou seja, restrito à glândula, sem evidência de disseminação para linfonodos ou outros órgãos. 

O estadiamento do câncer de próstata é, portanto, um passo indispensável antes de qualquer decisão terapêutica.

Perfil clínico do candidato ideal

De forma geral, o candidato ao tratamento focal reúne as seguintes características:

  • Tumor de risco baixo a intermediário (Gleason 6 ou 7);
  • Doença unilateral ou com volume limitado, confirmada por biópsia de fusão;
  • Ressonância magnética multiparamétrica com lesão claramente delimitada;
  • Ausência de doença extraprostática.

Pacientes com doença de alto risco, tumores multifocais extensos ou acometimento de ambos os lobos prostáticos, em geral, não são candidatos ao tratamento focal como estratégia principal.

A seleção adequada é parte do tratamento

Não existe terapia focal eficaz sem uma seleção rigorosa. Um paciente mal indicado para esse tipo de abordagem pode ter uma falha oncológica que exigirá tratamento de resgate, muitas vezes mais complexo do que se o tratamento definitivo tivesse sido escolhido desde o início. 

Por isso, a decisão deve envolver um urologista experiente em oncologia urológica, com acesso a imagens de alta qualidade e biópsia guiada.

Principais tipos de terapias focais para próstata

HIFU: ultrassom focalizado de alta intensidade

O HIFU próstata é, atualmente, a terapia focal mais utilizada e estudada no mundo. 

O procedimento usa ondas ultrassônicas de alta intensidade, focadas em um ponto preciso do tecido prostático, gerando calor suficiente para destruir as células tumorais — sem cortes, sem radiação. 

  • É realizado por via transretal ou transperineal, com o paciente sob anestesia. A recuperação é rápida, o tempo de internação é curto e os efeitos colaterais são significativamente menores do que na cirurgia convencional.

O HIFU é reconhecido pela EAU como opção de tratamento em contexto de terapia focal e tem sido cada vez mais adotado em centros de referência em urologia oncológica ao redor do mundo.

Publicado em dezembro de 2024 no European Urology, o HIFI Trial, acompanhou 3.328 pacientes em 46 centros e comparou diretamente HIFU com prostatectomia radical. 

Em 30 meses, a taxa de controle oncológico foi equivalente entre os grupos, com 90% dos pacientes tratados com HIFU livres de necessidade de tratamento de resgate, frente a 86% no grupo cirurgia. 

Eletroporação irreversível (IRE): destruição celular sem calor

A eletroporação irreversível da próstata, também conhecida como NanoKnife, funciona por um mecanismo completamente diferente do HIFU. 

Em vez de calor, utiliza pulsos elétricos de alta voltagem para criar poros permanentes na membrana das células tumorais, levando à morte celular por apoptose. 

  • A grande vantagem é que o processo não depende de temperatura, o que reduz o risco de dano aos vasos sanguíneos, nervos e uretra nas imediações do tumor.

É uma tecnologia especialmente interessante para tumores localizados próximos ao feixe neurovascular, região crítica para a função erétil, onde o calor do HIFU poderia representar maior risco.

Crioterapia focal

A crioterapia focal usa nitrogênio líquido ou argônio para congelar e destruir o tecido tumoral. Agulhas finas são inseridas por via transperineal, guiadas por ultrassom, diretamente na área comprometida. 

O ciclo de congelamento e descongelamento causa necrose das células. É uma opção com bom histórico de uso em urologia oncológica, embora atualmente menos utilizada que o HIFU em contextos focais.

Outras tecnologias emergentes

O campo das terapias focais está em constante expansão. Abordagens como a terapia fotodinâmica vascular (VTP) com padeliporfina e o laser focal intersticial (LITT) já apresentam resultados promissores em estudos clínicos. 

A tendência é que o cardápio de opções se amplie nos próximos anos, tornando o tratamento cada vez mais personalizado.

Vantagens das terapias focais frente aos tratamentos convencionais

Menor risco de disfunção erétil

A preservação dos feixes neurovasculares, estruturas que percorrem a lateral da próstata e são fundamentais para a ereção, é um dos principais ganhos do tratamento focal. 

Ao tratar apenas a área do tumor, o risco de dano a esses nervos é consideravelmente reduzido em comparação com a prostatectomia radical, onde a dissecção é ampla.

Menor risco de incontinência urinária

O esfíncter urinário externo, localizado logo abaixo da próstata, é um dos principais alvos involuntários nos tratamentos convencionais. 

As terapias focais, por atuarem em regiões delimitadas, reduzem substancialmente a chance de comprometimento do controle urinário, um fator de qualidade de vida extremamente relevante para homens ativos.

Recuperação mais rápida e menos invasiva

A maioria dos procedimentos focais é realizada em regime de curta internação ou mesmo ambulatorial. O retorno às atividades cotidianas acontece em dias, não em semanas. 

Essa característica torna as terapias focais uma opção especialmente atraente para homens que não podem se afastar por longos períodos do trabalho ou de suas atividades.

Limitações e riscos que precisam ser considerados

Nem todos os pacientes são candidatos

Esse é o ponto mais importante de qualquer discussão sobre terapias focais: a indicação precisa ser criteriosa.

Tumores de alto risco, doença bilateral extensa, invasão seminal ou linfonodal excluem o paciente da abordagem focal como tratamento definitivo.

Tentar encaixar um paciente fora do perfil ideal em uma terapia focal representa risco oncológico real.

Possibilidade de tratamento complementar

Mesmo em casos bem selecionados, a terapia focal pode não eliminar completamente o tumor, especialmente em focos microscópicos não detectados na imagem. 

Por isso, o acompanhamento com PSA e biópsia de controle é mandatório. Quando necessário, um tratamento de resgate (cirurgia ou radioterapia) pode ser indicado, e é importante que o paciente esteja informado dessa possibilidade.

A importância da avaliação individualizada

A decisão entre terapia focal, cirurgia para câncer de próstata ou radioterapia é uma conversa clínica profunda. 

Envolve o estadiamento tumoral, o perfil de risco, as expectativas do paciente, sua idade, comorbidades e prioridades em relação à qualidade de vida. 

Não existe a “melhor opção universal”, existe a melhor opção para aquele homem, naquele momento.

Terapia focal, cirurgia e radioterapia: como se comparam

Diferenças de abordagem

Terapia focal — HIFU / Eletroporação

Alvo: Apenas a região tumoral  |  Via: Transretal ou transperineal  |  Impacto funcional: Menor

Cirurgia — Prostatectomia radical

Alvo: Próstata inteira  |  Via: Abdominal ou robótica  |  Impacto funcional: Moderado a alto

Radioterapia — Externa / Braquiterapia

Alvo: Próstata + margem de segurança  |  Via: Externa ou braquiterapia  |  Impacto funcional: Moderado

Indicações e resultados

A comparação entre as modalidades mostra que, nos casos adequadamente selecionados, as terapias focais oferecem controle oncológico comparável no curto e médio prazo, com ganho significativo na esfera funcional. 

Os estudos de longo prazo ainda estão em andamento, o que reforça a importância do seguimento rigoroso após qualquer modalidade de tratamento focal.

Para tumores de alto risco ou doença mais avançada, cirurgia e radioterapia continuam sendo os padrões de referência, com décadas de evidência acumulada sobre eficácia e segurança.

Dr. Jonathan Cha: tecnologia a serviço da qualidade de vida

As terapias focais no câncer de próstata representam um dos avanços mais significativos da urologia oncológica nas últimas décadas. 

Tratar só o tumor, com precisão, menos invasão e menor custo funcional, é uma mudança de paradigma que já beneficia pacientes em todo o mundo.

Mas a aplicação segura dessas tecnologias exige critério, experiência e infraestrutura adequada. A terapia focal errada, para o paciente errado, pode comprometer o controle do câncer de forma irreversível.

Se você foi diagnosticado com câncer de próstata e quer entender quais opções de tratamento se aplicam ao seu caso, incluindo as mais modernas e minimamente invasivas, o caminho começa com uma avaliação especializada.

O Dr. Jonathan Doyun Cha, urologista do Hospital Israelita Albert Einstein, é membro da American Urological Association e da European Association of Urology. 

Com formação internacional e domínio das tecnologias mais avançadas em urologia oncológica, conduz cada decisão com rigor técnico e atenção individualizada ao paciente.

Agende sua consulta e receba uma avaliação completa e personalizada do seu caso.

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FAQ — Perguntas frequentes sobre terapias focais no câncer de próstata

Existe tratamento sem cirurgia para câncer de próstata? 

Sim. As terapias focais, como HIFU e eletroporação irreversível, são alternativas à cirurgia em casos selecionados de câncer de próstata localizado. 

Também a radioterapia e a vigilância ativa são opções não cirúrgicas, dependendo do estadiamento e do perfil de risco do tumor.

Terapia focal cura câncer de próstata? 

A terapia focal tem como objetivo o controle oncológico do tumor, com boa taxa de sucesso em pacientes bem selecionados. O termo “cura” em oncologia exige acompanhamento prolongado para confirmação. 

O que se pode afirmar é que, em casos adequados, os resultados de controle tumoral são comparáveis ao de outras modalidades, com menor impacto funcional.

HIFU para próstata funciona? 

Sim, o HIFU é uma das terapias focais mais estudadas e reconhecidas pela urologia mundial. Quando indicado para o perfil correto de paciente, apresenta bons resultados oncológicos e preservação funcional significativa. 

A qualidade do resultado depende diretamente da seleção do caso e da experiência do centro realizador.

Quem pode fazer terapia focal no câncer de próstata? 

Pacientes com câncer de próstata localizado, de risco baixo a intermediário, com tumor bem delimitado na ressonância magnética e confirmado por biópsia de fusão são os melhores candidatos. 

A avaliação individual com um urologista especializado é indispensável para a decisão.

Terapia focal tem risco de impotência? 

O risco existe, mas é consideravelmente menor do que na prostatectomia radical, especialmente quando o tumor está distante do feixe neurovascular. A preservação da função sexual é uma das principais vantagens das terapias focais sobre os tratamentos convencionais.

Terapia focal substitui a radioterapia? 

Em alguns casos, sim, quando o perfil do tumor permite o tratamento focal como estratégia definitiva. Em outros, a radioterapia permanece sendo a indicação mais segura, especialmente em tumores de maior risco ou doença mais extensa. A decisão deve ser individualizada.

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